Jaiva-Dharma, Matérias, Srila Bhaktivinoda Thakura, Tradução
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A Existência Material – Parte 2

Yadava dasa: Babaji Mahasaya, os sadhus de quem você fala também estão presentes neste mundo e também são oprimidos pelas misérias da existência material, como podem libertar outras jivas?

Ananta dasa: Embora seja verdade que os sadhus também vivem neste mundo, há uma diferença significativa entre a vida terrena dos sadhus e a das jivas que estão iludidas por maya. Apesar das vidas terrenas de ambos parecerem ser a mesma coisa do ponto de vista externo, internamente há uma diferença imensa. Além disso, a associação dos sadhus é muito rara, pois, muito embora sempre haja sadhus presentes neste mundo, o homem comum não consegue reconhecê-los.

Há duas categorias de jivas que caem nas garras de maya. Umas estão totalmente absortas em prazeres mundanos insignificantes, e tem este mundo material na mais alta estima. Outras, sentindo-se descontentes com os prazeres insignificantes de maya, empregam discernimento mais sutil na esperança de atingir uma qualidade superior de felicidade. Por conseguinte, podemos dividir as pessoas deste mundo em dois grupos: o daquelas que carecem da faculdade de distinguir entre espírito e matéria e o daquelas que possuem esta percepção espiritual.

Certas pessoas chamam de desfrutadores dos sentidos materiais aqueles que carecem de semelhante percepção, e de mumuksus, ou os que buscam a liberação, aqueles dotados de percepção. Ao usar aqui a palavra mumuksu, não me refiro aos nirbheda-brahma jñanis, aqueles que buscam o nirvisesa-brahma mediante o processo de conhecimento monista. Nos sastras védicos, são conhecidas como mumuksus as pessoas que estão aflitas diante das misérias da existência material, e buscam sua identidade espiritual verdadeira. O significado literal da palavra mumuksa é “desejo de mukti” (liberação). Quando um mumuksu abandona este desejo de liberação e se dedica a adorar Sri Bhagavan, seu bhajana é conhecido como suddha-bhakti. Os sastras não mandam ninguém abandonar mukti. Ao contrário, quando uma pessoa desejosa de liberação adquire conhecimento da verdade sobre Krsna e as jivas, ela liberta-se de imediato. O Srimad-Bhagavatam (6.14.3-5) confirma isto como segue:

rajobhih sama-sankhyatah parthivair iha jantavah
tesam ye kecanehante sreyo vai manujadayah

“As jivas deste mundo são tão numerosas quanto partículas de poeira. Entre todas estas entidades vivas, poucas alcançam formas de vida superiores, como aquelas dos seres humanos, devas e Gandharvas. Pouquíssimas destas adotam os princípios religiosos superiores.”

prayo mumuksavas tesam kecanaiva dvijottama
mumuksunam sahasresu kascin mucyeta sidhyati

“Ó melhor dos brahmanas, entre aquelas que adotam princípios religiosos superiores, poucas se esforçam para obter a liberação, e entre muitos milhares que se empenham pela liberação, talvez uma alcance realmente o estado aperfeiçoado ou liberado.”

muktanam api siddhanam narayana-parayanah
su-durlabhah prasantatma kotisv api maha-mune

“Ó grande sábio, entre muitos milhões dessas almas liberadas e perfeitas, um devoto que seja plenamente pacífico e dedicado exclusivamente a Sri Narayana é extremamente raro.”

Os bhaktas de Krsna são ainda mais raros que os de Narayana, pois superaram o desejo de liberação e, já estão situados no estado liberado. Eles irão permanecer neste mundo enquanto seus corpos durarem, mas sua existência terrena é categoricamente diferente daquela dos materialistas. Os bhaktas de Krsna vivem neste mundo em duas condições: como chefes de família e como renunciantes.

Yadava dasa: Os slokas do Bhagavatam que você acaba de citar referem-se a quatro categorias de pessoas dotadas de percepção espiritual. Destes quatro tipos de associação, qual é considerado sadhu-sanga?

Ananta dasa: Existem quatro categorias de pessoas dotadas de percepção espiritual: viveki (aqueles que são conscientes), mumuksu (aqueles desejosos de liberação), mukta (aqueles que são liberados) e bhakta. Entre estes, a associação de vivekis e mumuksus é benéfica para visayis, materialistas grosseiros. Muktas, são indivíduos liberados com uma sede insaciável de rasa, ou impersonalistas que se orgulham de ser liberados. Apenas a associação do primeiro tipo de mukta é benéfica. Os nirbheda Mayavadis são ofensores, a associação deles é proibida para todos. Semelhantes pessoas são condenadas no Srimad-Bhagavatam (10.2.32):

ye´nye´ravindaksa vimukta-maninas
tvayy asta-bhavad avisuddha-buddhayah
aruhya krcchrena param padam tatah
patanty adho´nadrta-yusmad-angharayah

“Ó Senhor de olhos de lótus, aqueles que não se abrigam em Seus pés de lótus consideram-se liberados em vão. A inteligência deles é impura porque carecem de afeição e devoção por Você e na realidade, são baddha-jivas. Muito embora alcancem a plataforma da liberação submetendo-se a rigorosas austeridades e práticas espirituais, semelhantes pessoas caem daquela posição por menosprezarem Seus pés de lótus.”

A quarta categoria de almas com discernimento, os bhaktas, sentem-se atraídos, quer pelo aspecto opulento e majestoso (aisvarya) de Sri Bhagavan, ou por Seu aspecto doce e íntimo (madhurya). A associação dos bhaktas de Sri Bhagavan é benéfica sob todos os aspectos. Se alguém refugiar-se especialmente naqueles bhaktas que estão imersos na doçura de Sri Bhagavan, visuddha-bhakti-rasa, as doçuras transcendentais de bhakti, irão se manifestar em seu coração.

Yadava dasa: Você já nos explicou que os bhaktas vivem em duas condições. Por favor, explique isto com mais detalhes para que pessoas como eu, cuja inteligência é limitada, possam entender com clareza.

Ananta dasa: Os bhaktas são grhastha-bhaktas (chefes de família), ou tyagi-bhaktas (os que renunciaram à vida familiar).

Yadava dasa: Por favor, descreva a natureza do relacionamento dos grhastha-bhaktas com este mundo.

Ananta dasa: Não se torna grhastha quem simplesmente constrói uma casa e passa a morar nela. A palavra grha em grhastha refere-se ao lar consolidado ao se aceitar uma esposa adequada em matrimônio, de acordo com as regras e regulações védicas. É conhecido como grhastha-bhakta o bhakta, que morando em semelhante condição, pratica bhakti.

A jiva presa por maya vê forma e cor através dos olhos, ouve sons através dos ouvidos, cheira fragrâncias com o nariz, toca com a pele e saboreia com a língua. A jiva entra no mundo material por meio destes cinco sentidos, e se apega a eles. Quanto mais for apegada à matéria grosseira, mais ficará distante de seu Prananatha, o Senhor de sua vida Sri Krsna, condição esta chamada de bahirmukha-samsara, consciência voltada para fora, em direção à existência mundana. Os que ficam intoxicados por esta existência mundana são conhecidos como visayis, aqueles apegados aos objetos mundanos dos sentidos.

Ao viverem como grhasthas, os bhaktas não agem como os visayis, que simplesmente buscam a gratificação dos sentidos. A dharma-patni (esposa e parceira do chefe de família na prática de nitya-dharma) é uma dasi, ou serva de Krsna, tanto como o são seus filhos e filhas. Os olhos de todos os membros da família satisfazem-se contemplando a forma da Deidade e objetos associados a Krsna; seus ouvidos contentam-se plenamente ouvindo hari-katha e narrações das vidas de grandes sadhus ; seus narizes experimentam satisfação cheirando o aroma de tulasi e outros objetos aromáticos oferecidos aos pés de lótus de Sri Krsna; suas línguas saboreiam o néctar de Krsna-nama e os remanentes da comida oferecida a Krsna; sua pele sente deleite tocando os membros dos corpos dos bhaktas de Sri Hari; suas esperanças, atividades, desejos, hospitalidade aos visitantes e serviço à Deidade são todos subordinados ao serviço que prestam a Krsna. De fato, toda a vida deles é um grande festival consistindo em Krsna-nama, misericórdia para com as jivas e serviço aos Vaisnavas.

Somente grhastha-bhaktas podem possuir objetos materiais e utilizá-los sem se apegarem aos mesmos. É bastante apropriado que as jivas na era de Kali tornem-se grhasthas Vaisnavas, pois assim não haverá o temor de uma queda. Pode-se também desenvolver bhakti plenamente desta posição. Muitos grhasthas Vaisnavas são gurus bem versados nas verdades fundamentais do sastra. Se os filhos desses Vaisnavas santos também são Vaisnavas puros (Gosvamis), eles são tidos como grhastha-bhaktas. É por este motivo que a associação de grhastha-bhaktas é especialmente benéfica para as jivas.

Yadava dasa: Grhasthas Vaisnavas são obrigados a permanecer sob a jurisdição dos smarta-brahmanas, caso contrário, terão que se sujeitar a muito transtorno na sociedade. Nessas circunstâncias, como podem praticar suddha-bhakti?

Ananta dasa: Sem dúvida, os grhasthas Vaisnavas são obrigados a cumprir certas convenções sociais, tais como casar seus filhos e filhas, realizar funções cerimoniais para antepassados e outras responsabilidades afins. Todavia, não devem ocupar-se em kamya-karma, atividades ritualísticas destinadas apenas a satisfazer ambições materiais.

Quando o assunto é subsistência, todos – mesmo quem se diz nirapeksa, desprovido de quaisquer necessidades – dependem de outras pessoas ou coisas. Todos os seres corporificados têm necessidades: dependem de remédios quando adoecem, de comida quando sentem fome, de roupa para se protegerem do frio e de uma casa para se protegerem do excesso de calor ou chuva. Na verdade, nirapeksa quer dizer reduzir as necessidades na medida do possível, pois ninguém poderá ser absolutamente independente enquanto tiver um corpo material. Ainda assim, é melhor ser tão livre o quanto for possível da dependência material, pois isto é mais conducente ao avanço em bhakti.

Todas as atividades que acabo de mencionar isentam-se de defeitos apenas quando as vinculamos a Krsna. Por exemplo, ninguém deve casar-se com o desejo de gerar filhos ou adorar os antepassados e Prajapatis. É favorável a bhakti, pensar: “Estou aceitando em casamento esta serva de Krsna somente para podermos nos ajudar mutuamente no serviço a Krsna e juntos constituirmos uma família centralizada em Krsna.” Não importa o que digam parentes apegados à matéria ou o sacerdote da família – em última análise, colhemos os frutos de nossa própria determinação.

Por ocasião da cerimônia de sraddha, deve-se primeiro oferecer aos antepassados os remanentes do alimento oferecido a Sri Krsna, e então alimentar os brahmanas e Vaisnavas. Se os grhasthas Vaisnavas observarem a cerimônia de sraddha desta maneira, ela será favorável para a bhakti deles.

Todos os rituais smarta são karma, ao menos e até que a pessoa os combine com bhakti. Se alguém cumpre o karma prescrito para si pelos Vedas, em conformidade com sua prática de suddha-bhakti, este karma não é desfavorável a bhakti. Devemos executar as atividades corriqueiras com espírito de renúncia e sem apego ao resultado e, devemos realizar as atividades espirituais na associação de bhaktas; assim não haverá falha.

Considere que a maioria dos associados de Sriman Mahaprabhu eram grhastha-bhaktas, tanto como o foram muitos rajarsis (reis santos) e devarsis (grandes sábios) de outrora. Dhruva, Prahlada e os Pandavas foram todos grhastha-bhaktas. Você deve entender que os grhastha-bhaktas também são altamente respeitados e queridos por todo o mundo.

Yadava dasa: Se os grhastha-bhaktas são tão respeitados e queridos todos, por que alguns deles renunciam à vida familiar?

Ananta dasa: Apesar de alguns grhastha-bhaktas estarem aptos a renunciar à vida familiar, neste mundo há bem poucos desses Vaisnavas, cuja associação é rara.

Yadava dasa: Por favor, explique o modo pelo qual a pessoa se torna apta a renunciar à vida familiar.

Ananta dasa: Os seres humanos têm duas tendências: bahirmukha-pravritti (a tendência externa) e antarmukha-pravritti (a tendência interna). Os Vedas se referem a estas duas tendências como uma estando focalizada externamente, voltada ao mundo externo e a outra focalizada internamente, voltada para a alma.

Ao esquecer-se de sua identidade verdadeira, a alma espiritual pura identifica falsamente a mente como o ‘eu’, embora na verdade a mente seja apenas uma parte do corpo material sutil. Ao se identificar com a mente desta maneira, a alma busca assistência dos portões dos sentidos, passando a sentir-se atraída pelos objetos externos dos sentidos. Esta é a tendência externa. A tendência interna manifesta-se quando o fluxo da consciência reverte da matéria grosseira para a mente, e daí para a alma propriamente dita.

Alguém cuja tendência seja predominantemente externa deve conduzir todas as tendências externas de maneira inofensiva, mantendo Krsna no centro pela força de sadhu-sanga. Para quem se abriga em Krsna-bhakti, essas tendências exteriorizadas são logo reduzidas e convertidas para a tendência interna. Quando a direção da tendência de uma pessoa aponta completamente para o seu íntimo, nasce a aptidão para ela renunciar à vida familiar. Porém, quem abandona a vida familiar antes de atingir esta etapa corre um considerável risco de cair outra vez. O grhastha asrama é uma escola especial onde as jivas podem receber instruções relativas a atma-tattva, a verdade espiritual e, onde se lhes dá a oportunidade de desenvolver sua realização desses assuntos. Quando a educação estiver completa poderão deixar a escola.

Yadava dasa: Quais são os sintomas de um bhakta que está apto a abandonar a vida familiar?

Ananta dasa: Ele deve estar livre do desejo de relacionar-se com o sexo oposto; deve ter misericórdia irrestrita para com todas as entidades vivas; deve ser completamente indiferente a esforços feitos visando o acúmulo de riqueza e deve esforçar-se apenas em momentos de necessidade de modo a adquirir alimento e roupa adequados para a sua subsistência. Ele deve ter amor incondicional por Sri Krsna; deve evitar a associação de materialistas e deve estar livre do apego e da aversão da vida e da morte. O Srimad-Bhagavatam (11.2.45) descreve estes sintomas como segue:

sarva-bhutesu yah pasyed bhagavad-bhavam atmanah
bhutani bhagavaty atmany esa bhagavatottamah

“Aquele que vê o seu próprio humor de atração por Sri Krsnacandra, a Alma de todas as almas, em todas as jivas, além de ver que todas entidades vivas encontram-se abrigadas em Sri Krsna, é um uttama-bhagavata.”

No Srimad-Bhagavatam (3.25.22), Bhagavan Kapiladeva descreve as características principais dos sadhus:

mayy ananyena bhavena bhaktim kurvanti ye drdham
mat-krte tyakta-karma nas tyakta-svajana-bandhavah

“Aqueles que adoram a Mim e ninguém mais e por isso praticam devoção sólida e exclusiva a Mim, abandonam tudo por Minha causa, inclusive todos os deveres prescritos no varnasrama-dharma e todos os relacionamentos com esposas, filhos, amigos e parentes.”

O Srimad-Bhagavatam (11.2.55) também afirma:

visrjati hrdayam na yasya saksad-
dharir avasabhihito´py aghaugha-nasah
pranaya-rasanaya dhrtanghri-padmah
sa bhavati bhagavata-pradhana uktah

“Se alguém, mesmo sem ter intenção, pronuncia sri-hari-nama com atitude inofensiva, de imediato é destruído um monte de pecados acumulados ao longo de muitas vidas. Semelhante pessoa amarra os pés de lótus de Sri Hari em seu coração com as cordas do amor, sendo assim considerada o melhor dos bhaktas.”

Ao se manifestarem estes sintomas num grhasthabhakta, a ocupação em karma deixa de satisfazê-lo e, por isso ele abandona a vida familiar. Como são raros esses nirapeksa-bhaktas (renunciantes), devemos nos considerar extremamente afortunados por conquistar a associação deles.

Yadava dasa: Hoje em dia, é comum certos jovens renunciarem à vida familiar e adotarem as vestes da ordem renunciada. Eles arrumam um lugar para os sadhus se congregarem e começam a adorar a Deidade do Senhor. Depois de algum tempo, caem de novo na associação de mulheres, mas não deixam de cantar hari-nama. Mantêm seu eremitério arrecadando esmolas de muitos lugares. Esses homens são tyagis ou grhastha-bhaktas?

Ananta dasa: Sua pergunta aborda diversos assuntos ao mesmo tempo e, por isso tratarei deles um por um. Antes de tudo, a qualificação para se renunciar à vida familiar nada tem a ver com a juventude ou a velhice. Alguns grhastha-bhaktas, em função dos samskaras adquiridos nesta vida e em vidas anteriores, qualificam-se para abandonar a vida familiar ainda bem jovens. Os samskaras anteriores de Sukadeva, por exemplo, capacitaram-no a renunciar à vida familiar tão logo ele nasceu. A pessoa deve estar atenta para que esta aptidão não seja artificial. A partir do despertar do desapego verdadeiro, a juventude deixa de ser um obstáculo.

Yadava dasa: O que é renúncia verdadeira e o que é renúncia falsa?

Ananta dasa: A renúncia verdadeira é tão sólida que jamais pode ser interrompida. A renúncia falsa surge da decepção, da desonestidade e do desejo de prestígio. Certos indivíduos dão um falso espetáculo de renúncia para conquistarem o mesmo respeito prestado a nirapeksa-bhaktas que abandonaram a vida familiar. Porém, tal desapego falso, é fútil e completamente inauspicioso. Tão logo tais pessoas deixam o lar, os sintomas de sua aptidão ao desapego desaparecem, e já começam a se depravar.

Yadava dasa: Um bhakta que tenha abandonado a vida familiar precisa adotar as vestes externas de um renunciante?

Ananta dasa: Nirapeksa-akiñcana-bhaktas que tenham resolutamente renunciado ao espírito de desfrute purificam o mundo inteiro, quer vivam na floresta, quer permaneçam em casa. Alguns deles arranjam uma tanga e roupas velhas e surradas como sinais externos para identificá-los como membros da ordem renunciada. Na ocasião em que aceitam este traje, fortalecem sua decisão fazendo um voto resoluto na presença de outros Vaisnavas também membros da ordem renunciada. Esta é a chamada admissão na ordem renunciada, ou a aceitação de vestes próprias para a renúncia. Se você chama isto de bheka-grahana ou vesa-grahana, aceitação do traje da renúncia, então, que mal há nisto?

Yadava dasa: Para que serve ser identificado pelos sinais da ordem renunciada?

Ananta dasa: É muito útil ser identificado como membro da ordem renunciada. Os familiares do renunciante deixarão de se relacionar com ele e lhes será fácil abandoná-lo. Ele já não desejará entrar em casa e despertará em seu coração um desapego natural e, como consequência, o temor da sociedade materialista. Para certos bhaktas, é benéfico aceitar os sinais externos da renúncia, embora isto não seja necessário no caso do desapego da vida familiar ter amadurecido por completo. Conforme diz o Srimad-Bhagavatam (4.29.46):

sa jahati matim loke vede ca parinisthitam

“Um bhakta que tenha recebido a misericórdia de Bhagavan abandona o apego às atividades mundanas e a todos os deveres ritualísticos prescritos nos Vedas.”

Não há uma injunção determinando que tais bhaktas aceitem o traje externo da renúncia. Este é necessário somente enquanto houver alguma dependência da apreciação pública.

Yadava dasa: De quem deve-se aceitar a ordem renunciada?

Ananta dasa: Deve-se aceitar a ordem renunciada de um Vaisnava pertencente a ordem renunciada. Grhastha-bhaktas não têm experiência quanto ao comportamento de bhaktas renunciados, e por isso não devem iniciar ninguém na ordem renunciada. A seguinte declaração do Brahmavaivarta Purana confirma isto:

apariksyopadistam yat loka-nasaya tad bhavet

“Aquele que ensina aos outros princípios religiosos que ele próprio não segue, traz a ruína ao mundo.”

Yadava dasa: Que critérios um guru deve usar para oferecer iniciação na ordem renunciada?

Ananta dasa: Em primeiro lugar, o guru deve considerar se o discípulo está qualificado ou não. Ele deve averiguar se o grhastha-bhakta, pela força de Krsna-bhakti, adquiriu um temperamento espiritual caracterizado por qualidades tais como pleno controle da mente e dos sentidos. Se a usura por riqueza e a satisfação da língua foram extirpadas ou não? O guru deve manter o discípulo consigo por algum tempo a fim de examiná-lo na íntegra, podendo iniciá-lo na ordem renunciada ao constatar se ele é um candidato genuíno. Antes disso, não deve oferecer iniciação sob hipótese alguma. Se o guru oferecer iniciação a uma pessoa desqualificada, com certeza ele próprio cairá.

Yadava dasa: Agora percebo não ser leviandade aceitar a ordem renunciada; trata-se de compromisso sério. Gurus desqualificados andam transformando esta prática em algo vulgar. Isto mal começou e, não há como saber onde vai acabar.

Ananta dasa: Sri Caitanya Mahaprabhu aplicou castigo rigoroso a Chota Haridasa por uma falha totalmente insignificante, apenas para proteger a santidade da ordem renunciada. Os seguidores de nosso Senhor devem sempre lembrar-se da punição de Chota Haridasa.

Yadava dasa: É correto construir um monastério e instituir a adoração a uma Deidade depois de ter ingressado na ordem renunciada?

Ananta dasa: Não. O discípulo qualificado que ingressou na ordem renunciada deve cuidar de sua subsistência mendigando todo dia. Não deve envolver-se com construções de monastérios ou outros grandes empreendimentos. Poderá morar em qualquer lugar, ou numa cabana isolada, ou no templo de um chefe de família. Ele deve permanecer fora de todos os assuntos que envolvem dinheiro e deve constantemente cantar sri-hari-nama sem cometer ofensas.

Yadava dasa: Como você chama aqueles renunciantes que instituem um monastério e depois vivem como chefes de família?

Ananta dasa: Eles podem ser chamados de vantasi (aqueles que comem o próprio vômito).

Yadava dasa: Então, eles não devem mais ser considerados Vaisnavas?

Ananta dasa: Que benefício pode resultar da associação deles quando seu comportamento é contrário ao sastra e ao vaisnava-dharma? Abandonaram bhakti pura para se dedicarem a um estilo de vida hipócrita. Que espécie de relacionamento poderia um Vaisnava ter com tais pessoas?

Yadava dasa: Como se pode dizer que tais pessoas abandonaram o Vaisnavismo se não deixaram de cantar hari-nama?

Ananta dasa: Hari-nama e nama-aparadha são duas coisas distintas. Hari-nama puro é bem diferente do cantar ofensivo que só tem a aparência externa de hari-nama. É ofensa cometer pecados com base no canto de sri-nama. Se alguém canta sri-nama e ao mesmo tempo comete atividades pecaminosas, achando que o poder de sri-nama irá isentá-lo de reações pecaminosas, está cometendo nama-aparadha. Isto não é suddha-hari-nama, deve-se distanciar de tal cantar ofensivo.

Yadava dasa: Então, não é para considerar a vida doméstica dessas pessoas centralizadas em Krsna? “Nunca!” disse Ananta dasa com firmeza. “Não é possível haver hipocrisia na vida doméstica centralizada em Krsna. Só poderá haver total honestidade e simplicidade, sem nenhum vestígio de ofensa.”

Yadava dasa: Tal pessoa é inferior ao grhastha-bhakta?

Ananta dasa: Ela não é nem mesmo um devoto, portanto, não há por que compará-la com algum bhakta.

Yadava dasa: Como ela poderá se retificar?

Ananta dasa: Ela será incluída de novo entre os bhaktas quando abandonar todas essas ofensas, cantar sri-nama constantemente e verter lágrimas de arrependimento.

Yadava dasa: Babaji Mahasaya, grhastha-bhaktas enquadram-se nas regras e regulações do varnasrama-dharma. Se um grhastha é excluído do varnasrama-dharma, não é impedido de se tornar Vaisnava?

Ananta dasa: Ah! O vaisnava-dharma é muito liberal. Todas as jivas têm direito ao vaisnava-dharma – é por isso que também é conhecido como jaiva-dharma. Até os fora de casta podem assumir o vaisnava-dharma e viver como grhasthas, embora não façam parte do varnasrama. Além do mais, os que aceitaram sannyasa no âmbito do varnasrama e depois caíram de sua posição podem mais tarde adotar bhakti pura pela influência de sadhu-sanga.

Essas pessoas, apesar de estarem fora da jurisdição dos regulamentos do varnasrama, podem se tornar grhastha-bhaktas. Há ainda aqueles que abandonam o varnasrama-dharma devido aos seus malfeitos. Se eles e seus filhos abrigarem-se em suddha-bhakti pela influência de sadhu-sanga, podem tornar-se grhastha-bhaktas, embora não integrem o varnasrama. Constatamos, portanto, a existência de dois tipos de grhastha-bhaktas: o que faz parte do varnasrama e aquele excluído do varnasrama.

Yadava dasa: Qual dos dois é superior?

Ananta dasa: Aquele que tiver mais bhakti é superior. Se nenhum dos dois tiver bhakti alguma, então, o seguidor do varnasrama será superior do ponto de vista relativo vyavaharika, porque pelo menos observa alguns princípios religiosos, enquanto que o outro é um fora de casta sem nenhum princípio religioso. Contudo, da perspectiva espiritual paramarthika, ou absoluta, por estarem desprovidos de bhakti, ambos são caídos.

Yadava dasa: O grhastha tem direito de usar as vestes de um mendicante enquanto ainda é chefe de família?

Ananta dasa: Não. Se assim o faz, é culpado de dois delitos: engana-se a si mesmo, e engana o mundo. Se um grhastha adota as vestes de um mendicante, só afronta e ridiculariza os mendicantes genuínos que vestem a indumentária da ordem renunciada.

Yadava dasa: Babaji Mahasaya, os sastras descrevem algum sistema para se aceitar a ordem renunciada?

Ananta dasa: Não há uma descrição específica. Pessoas de todas as castas podem tornar-se Vaisnavas, mas, segundo o sastra, apenas os nascidos duas vezes podem aceitar sannyasa. No Srimad-Bhagavatam (7.11.35), Narada descreve as características distintas de cada um dos quatro varnas, concluindo com a declaração a seguir:

yasya yal-laksanam proktam pumso varnabhivyañjakam
yad anyatrapi drsyeta tat tenaiva vinirdiset

“O indivíduo deve ser considerado pertencente ao varna de características compatíveis com as dele, mesmo que tenha nascido em casta diferente.”

A prática de se oferecer sannyasa a homens que, embora nascidos em outras castas, manifestam sintomas de brahmanas, ocorre com base neste veredito dos sastras. Se um homem nascido em casta diferente tem de fato os sintomas de um brahmana e aceita sannyasa, então, é preciso admitir que este sistema é aprovado pelo sastra.

Este veredito dos sastras apóia a prática de se oferecer sannyasa a homens dotados de sintomas brahmínicos, mesmo que tenham nascido em outras castas. Isto só se aplica, no entanto, a questões paramarthika, e não a questões vyavaharika.

Yadava dasa: Irmão Candidasa, você já tem a resposta para sua pergunta?

Candidasa: Hoje me considero abençoado. De todas as instruções emanadas da boca do venerável Babaji Mahasaya, estes são os assuntos que consegui assimilar. A jiva é serva eterna de Krsna, mas se esquece disto e assume um corpo material. Influenciada pelas qualidades da natureza material ela obtém felicidade e aflição de objetos materiais. Em troca do privilégio de gozar os frutos de suas atividades materiais, tem que usar uma guirlanda de nascimento, velhice e morte.

Às vezes, a jiva nasce em posição elevada e, às vezes, em posição baixa, e é lançada em inúmeras circunstâncias por suas repetidas mudanças de identidade. A fome e a sede incitam-na a agir num corpo que pode perecer a qualquer instante. Sendo privada das necessidades deste mundo, é atirada a ilimitadas variedades de sofrimento. Seu corpo é atormentado pela ocorrência de muitas doenças e incômodos. Em casa, briga com a esposa e os filhos, chegando algumas vezes ao extremo de cometer suicídio. A cobiça para acumular riqueza estimula seu apetite de cometer pecados. É punida pelo governo, insultada pelos outros, e deste modo, submete-se a indescritíveis aflições corpóreas.

Vive sendo afligida pela saudade dos familiares, perda de riqueza, assaltos e inúmeras outras causas de sofrimento. Ao envelhecer, seus parentes não tomam conta dela, o que lhe causa muita angústia. Seu corpo encolhido é arruinado pelo muco, reumatismo e uma sucessão de outras dores, virando apenas fonte de miséria. Após a morte, entra em outro ventre para sofrer dores intoleráveis. Todavia, apesar de tudo isso, enquanto o corpo persistir, seu discernimento será subjugado pela luxúria, ira, cobiça, ilusão, orgulho e inveja. Isto é samsara. Agora compreendo o significado da palavra samsara. Repetidas vezes presto dandavat-pranama a Babaji Mahasaya. Os Vaisnavas são gurus do mundo inteiro. Hoje, pela misericórdia dos Vaisnavas, adquiri conhecimento verdadeiro sobre este mundo material.

Depois de ouvirem as profundas instruções de Ananta dasa Babaji Mahasaya, todos os Vaisnavas presentes exclamaram em voz alta: “Sadhu! Sadhu!” A essa altura, muitos Vaisnavas haviam se reunido ali, e começaram a cantar um bhajana que Lahiri Mahasaya havia composto.

e ghora samsare, padiya manava, na paya duhkhera sesa
sadhu-sanga kori´, hari bhaje yadi, tabe anta haya klesa

“A jiva que caiu nesta horrível existência material não encontra fim para o seu sofrimento. Porém, seus contratempos terminam quando ela, sendo agraciada pela associação dos sadhus , logo adota a adoração a Sri Hari.”

visaya-anale, jvaliche hrdaya, anale bade anala
aparadha cha
di´laya Krsna-nama, anale padaye jala

“O fogo devastador dos desejos sensuais queimam-lhe o coração e ao tentar satisfazer esses desejos, o fogo só aumenta com maior intensidade. No entanto, a iniciativa de abandonar as ofensas e cantar sri-Krsna-nama atua como um refrescante aguaceiro, que extingue esse fogo abrasante.”

nitai-caitanya-carana-kamale, asraya laila yei
kalidasa bole, jivane marane, amara asraya sei

“Kalidasa diz: Quem busca o abrigo dos pés de lótus de Caitanya-nitai é meu refúgio na vida e na morte.”

Enquanto prosseguia o kirtana, Candidasa dançava em grande êxtase. Tomou a poeira dos pés dos babajis sobre a cabeça e começou a rolar no chão, chorando de intensa alegria. Todos declaravam: “Candidasa é extremamente afortunado!”

Após algum tempo, Yadava dasa disse: “Vamos, Candidasa, precisamos ir para o outro lado do rio.” Sorrindo, Candidasa respondeu: “Se você me atravessar (pelo rio da existência material), eu irei.”

Ambos prestaram dandavat-pranama a Pradyumna-kuñja e partiram. Assim que saíram do kuñja, viram Damayanti prestando repetidas reverências e dizendo: “Ai de mim! Por que fui nascer mulher? Se tivesse nascido homem, teria sido fácil entrar neste kuñja, ter darsana destas grandes almas e purificar-me tendo a poeira dos seus pés sobre minha cabeça. Tomara que eu possa simplesmente tornar-me, nascimento após nascimento, uma serva dos Vaisnavas de Sri Navadvipa, e assim passar meus dias a serviço deles.”

Yadava dasa disse: “Oh! Este Godruma-dhama é o lugar sagrado perfeito. Pelo simples fato de vir aqui, a pessoa obtém suddha-bhakti. Godruma é um vilarejo de pastores de vacas, o lugar onde Sacinandana, o Senhor de nossas vidas, realiza Seus passatempos divinos. Sri Prabodhananda Sarasvati deu-se conta desta verdade no fundo do coração e orou com as seguintes palavras:

na loka-vedoddhrta-marga-bhedair
avisya sanklisyate re vimudhah
hathena sarvam parihrtya gaude
sri-godrume parna-kutim kurudhvam
Sri navadvipa-sataka
(36)

“Ó tolos, apesar de vocês terem se refugiado na sociedade mundana e nos Vedas e adotado muitos deveres sociais e religiosos, vocês continuam miseráveis. Abandonem agora mesmo estes caminhos incertos e construam bem rápido uma cabana de sapê em Sri Godruma!”

Dessa maneira, reciprocando hari-katha entre eles, os três atravessaram o Ganga e chegaram a Kuliya-grama.

Desde então, Candidasa e sua esposa Damayanti demonstraram conduta Vaisnava maravilhosa. Intocados pelo mundo de maya, foram agraciados com as qualidades de vaisnava-seva, cantando Krsna-nama constantemente e mostrando misericórdia para com todas as jivas. Bendito seja o casal de comerciantes! Bendita seja a misericórdia dos Vaisnavas! Bendita seja Sri Navadvipa-bhumi!

E assim termina o sétimo capítulo do Jaiva-Dharma, entitulado

“Nitya-Dharma & A Existência Material”

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