Jaiva-Dharma, Matérias 2, Srila Bhaktivinoda Thakura, Tradução
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A Existência Material – Parte 1

Ao longo das eras, incontáveis ourives viveram na antiga cidade mercantil de Saptagrama, nas margens do rio Sarasvati. Pela misericórdia de Sri Nityananda Prabhu, desde a época de Sri Uddharana Datta, esses mercadores se tornaram viciados em hari-nama-sankirtana. Um deles, entretanto, era uma pessoa muito mesquinha chamada Candidasa, que costumava abster-se de hari-kirtana com os habitantes da cidade porque tinha medo de gastar muito dinheiro para custear os festivais. Candidasa conseguiu acumular uma boa quantidade de riqueza através de negociações avarentas. A sua esposa, Damayanti, adotou o mesmo humor e não oferecia nem mesmo a menor hospitalidade aos Vaisnavas ou a outros convidados. Este casal mercador deu a luz a quatro filhos e a duas filhas em sua juventude. Suas filhas já estavam ambas casadas, e uma vasta herança estava reservada para os seus filhos.

Se pessoas santas nunca visitam uma casa, as crianças dentro dela são menos propensas a se tronarem gentis e compassivas. Conforme os filhos cresciam, eles se tornavam cada vez mais egoístas, e começaram a desejar que seus pais morressem para que pudessem obter suas heranças. O casal mercador começou a se tornar extremamente infeliz. Um a um, seus filhos se casaram. E conforme as suas esposas envelheciam, elas se embebiam das naturezas de seus maridos, e também começaram a desejar que seus sogros morressem. Depois de algum tempo, os filhos se tornaram muito hábeis nos negócios e começaram a supervisionar as compras e vendas com muita competência. Dividindo a maior parte da fortuna de seu pai, eles montaram seus próprios negócios.

Um dia, Candidasa chamou a todos para perto de si e disse, “Ouçam! Eu tenho vivido uma existência frugal desde a minha infância, e como resultado, eu consegui reservar uma grande fortuna para todos vocês. Eu nunca comi boas comidas ou me vesti com roupas luxuosas, e a mãe de vocês também viveu de maneira semelhante. É o dever de vocês cuidarem de nós agora que estamos envelhecendo, mas, recentemente, nós estamos ficando muito aflitos, pois começamos a notar que vocês estão nos negligenciando. Eu ainda tenho alguma riqueza escondida, e a darei a qualquer um dos meus filhos que seja bondoso o suficiente para cuidar de nós.”

Os filhos e noras de Candidasa ouviram as suas palavras em silêncio e depois foram para uma sala à parte onde pudessem conspirar entre eles. Eles concluíram, “Será melhor enviar papai e mamãe para longe, e então tomar posse de sua riqueza escondida e dividi-la entre nós, pois realmente não há como dizer para quem o velho a dará injustamente.” Todos eles estavam certos de que a riqueza estava enterrada no quarto de seu pai.

Certa manhã, ao amanhecer, o filho mais velho de Candidasa, Haricarana, foi ao seu pai com humildade fingida e disse, “Querido pai, você e a mamãe deveriam ir receber o darsana de Sri Navadvipa-dhama pelo menos uma vez, para que a sua vida humana se torne bem sucedida. Eu ouvi dizer que nenhum outro lugar sagrado é tão benéfico nesta era de Kali quanto Sri Navadvipa-dhama. Não será difícil ou dispendioso para vocês irem até lá, e se vocês estiverem incapazes de andar, nós poderemos contratar um barco para levar vocês rio acima por uma pequena taxa nominal. Também há uma Vaisnavi que ficaria feliz em acompanha-los até lá.”

Quando Candidasa informou Damayanti a respeito da proposta de seu filho, ela ficou muito feliz. Ambos concluíram, “Nossos filhos se tornaram atenciosos e corteses desde a nossa conversa naquele dia. Nós somos fortes o suficiente para andar, e então vamos fazer a peregrinação a Sridhama-Navadvipa por Kalna e Santipura.”

Tendo escolhido um dia auspicioso, o casal partiu em sua peregrinação, levando a Vaisnavi com eles. No dia seguinte, depois de terem andado uma boa distância, eles chegaram a Ambika-Kalna. Lá eles cozinharam para si próprios em uma loja, e se sentaram para comer. Enquanto eles estavam se alimentando, um morador de Saptagrama que os conhecia se aproximou e os informou, “Os seus filhos arrombaram a fechadura do quarto de vocês e pegaram todos os seus bens. Eles não irão permitir que vocês voltem para casa. Eles também descobriram o seu tesouro escondido e o distribuíram entre eles.”

Quando Candidasa e Damayanti receberam essas notícias, eles ficaram acometidos de pesar pela perda de sua riqueza. Eles ficaram incapazes de comer um simples bocado, e passaram o dia inteiro chorando lagrimas incessantes. A Vaisnavi presente tentou consolá-los, dizendo, “Não fiquem apegados a sua casa. Venham! Vocês podem aceitar vida de Vaisnavas ascetas. Construam um asrama simples aonde os Vaisnavas possam se reunir e morar. Os filhos por quem vocês sacrificaram tudo se tornaram seus inimigos, então não há a necessidade de voltar para casa. Vamos para Navadvipa e permaneçamos lá. Vocês podem se manter aceitando esmolas. Esta será uma vida muito melhor.”

Quando Damayanti e Candidasa refletiam a respeito do comportamento de seus filhos e noras, repetiam e repetiam, “Será muito melhor para nós morrermos do que retornar para casa”. Por fim, eles ficaram por alguns dias no lar de um Vaisnava, no vilarejo de Ambika, depois do qual eles partiram para ver Santipura, e, finalmente, chegaram a Sri Navadvipa-dhama. Eles permaneceram em Sri Mayapura por alguns dias com um parente mercador, e começaram a peregrinação pelas sete localidades de Navadvipa às margens do Ganges, e também pelas sete localidades de Kuliya-grama, do outro lado do rio. Entretanto, depois de alguns dias o seu apego por seus filhos e noras ressurgiu.

Candidasa disse a sua esposa, “Venha, vamos voltar para casa em Saptagrama. Afinal de contas, eles são nossos filhos, não são? Será que eles não mostrarão nem um pouquinho de afeição?”

A acompanhante Vaisnavi disse enfaticamente, “Vocês não possuem nenhuma dignidade? Desta vez eles irão mata-los!”

Quando o casal idoso ouviu isso, eles perceberam a verdade nas palavras dela e ficaram muito apreensivos. “Ó respeitável Vaisnavi”, eles disseram, “Você pode retornar para o seu lar. Nós possuímos discriminação suficiente agora. Nós iremos manter a nossa existência mendigando, nos aproximando de uma pessoa qualificada para instruções, e nos engajaremos em Bhagavad-bhajana.”

A acompanhante Vaisnavi partiu, e o casal mercador, tendo abandonado agora todas as esperanças de retornar a seu antigo lar em Saptagrama, começou a construir um novo lar na área de Kuliya-grama, aonde Chakauri Cattopadhyaya viveu. Aceitando contribuições e instruções de muitas pessoas graciosas e educadas, eles construíram uma cabana e começaram a viver lá permanentemente. Kuliya-grama é conhecido como o lugar sagrado aonde as ofensas são erradicadas, e a crença duradoura era que todas as ofensas prévias são dissipadas se alguém morasse lá.

Um dia, Candidasa disse, “Ó mãe de Hari, não fale mais a respeito de nossos filhos; nem mesmo pense neles. Nós aceitamos nascimento em uma família de mercadores por causa de muitas ofensas prévias, e devido ao nosso mau nascimento nós nos tornamos avarentos e nunca prestamos nenhum serviço aos Vaisnavas ou aos seus convidados. Agora, se nós obtivermos alguma riqueza aqui, nós certamente iremos usá-la para servir os convidados, assim, nós poderemos obter alguma boa fortuna em nossa próxima vida. Eu venho pensando em abrir uma mercearia. Eu irei mendigar por algumas rúpias de alguns cavalheiros e começarei essa tarefa.”

Em pouco tempo, Candidasa abriu uma pequena loja de onde conseguia fazer algum lucro todo dia. O casal começou a servir a um convidado, diariamente, além de alimentarem a si próprios, e assim, a vida passou muito mais agradavelmente do que antes.

Candidasa foi previamente educado, e agora ele sentava em sua loja e lia o Sri Krsna Vijaya de Gunaraja Khana sempre que ele tinha tempo. Ele administrava a sua loja honestamente e servia a seus convidados com hospitalidade. Cinco ou seis meses se passaram dessa maneira, e quando as pessoas de Kuliya vieram a conhecer a história prévia de Candidasa, elas começaram a desenvolver fé nele.

Nessa vila vivia um grhastha-brahmana chamado Yadava dasa que ministrava aulas diariamente sobre o Sri Caitanya-Mangala. Candidasa ocasionalmente ia ouvir essas aulas, e quando ele e Damayanti viram que Yadava dasa e sua esposa estavam sempre engajados em servir os Vaisnavas, eles ficaram inspirados em fazer o mesmo.

Um dia, Candidasa perguntou a Yadava dasa, “O que é essa existência material?”

Yadava dasa disse, “Muitos sábios Vaisnavas vivem nas margens ocidentais do Bhagirathi em Sri Godrumadvipa. Venha, vamos até lá perguntar a eles. Eu também vou até lá de tempos em tempos e recebo muitas instruções. Até o momento, os estudiosos Vaisnavas de Sri Godruma são mais hábeis nas conclusões dos sastras que os brahmanas estudiosos. Há alguns dias atrás, Sri Vaisnava dasa Babaji derrotou os brahmanas-panditas da região em um debate. Uma questão profunda como a sua pode ser respondida muito satisfatoriamente.”

Yadava dasa e Candidasa se prepararam para atravessar o Ganges pela tarde. Damayanti agora servia regularmente os Vaisnavas puros, e a mesquinharia em seu coração desapareceu por completo. “Eu irei com vocês a Sri Godruma”, ela disse.

“Os Vaisnavas lá não são grhasthas”, disse Yadava dasa. “Eles adotaram uma vida de estrita renúncia e são desapegados de todas as relações com mulheres. Eu receio que eles possam ficar infelizes se você for conosco.”

Damayanti respondeu, “Eu irei oferecer dandavat-pranama para eles à distância, e eu não entrarei em seu bosque. Eu sou uma senhora idosa. Eles nunca irão ficar bravos comigo.”

Yadava dasa disse, “Não é o costume de senhoras irem até lá. De qualquer maneira, nós podemos levar você até lá para se sentar em algum lugar próximo, e nós iremos trazê-la de volta quando nós retornarmos.”

Os três atravessaram o Ganges e caminharam pela areia nas margens do rio, alcançando o Pradyumna-kunja ao final da tarde. Damayanti ofereceu dandavats-pranamas prostrada nas portas do kunja, e se sentou nas proximidades debaixo de uma antiga árvore banyan. Yadava dasa e Candidasa entraram no kunja, e com grande devoção ofereceram dandavats-pranamas para a assembleia de Vaisnavas que estavam sentados sob a cobertura de flores Malati-Madhavi.

Paramahansa Babaji estava sentado no meio da assembleia, rodeado por Sri Vaisnava dasa, Lahiri Mahasaya, Ananta dasa Babaji e muitos outros. Candidasa se sentou próximo a Yadava dasa.

Ananta dasa Babaji olhou para Yadava dasa e perguntou, “Quem é este novo homem?”

Yadava dasa narrou toda a história de Candidasa. Ananta dasa Babaji sorriu e disse, “Sim, isto é o que é conhecido como existência material. Aquele que conhece a existência material é verdadeiramente sábio, e aqueles que caem no ciclo da existência material são dignos de pena.”

A mente de Candidasa estava gradualmente sendo limpa, pois quando alguém realiza nitya-sukrti – tal como hospedar Vaisnavas, e ler e ouvir os sastras vaisnavas – certamente adquire bons auspícios, e muito facilmente desenvolve sraddha em ananya-bhakti (devoção exclusiva). Quando ele ouviu as palavras de Sri Ananta dasa Babaji, Candidasa disse com o coração amolecido, “As minhas humildes preces é que você seja misericordioso comigo, e claramente explique o que é esta existência material.”

Ananta dasa Babaji disse, “A sua pergunta é muito profunda, e eu desejo que Sri Paramahansa Babaji Mahasaya ou Sri Vaisnava dasa Babaji Mahasaya devam respondê-la.”

Paramahansa Babaji disse, “Sri Ananta dasa Babaji Mahasaya é perfeitamente qualificado para responder uma pergunta de tal gravidade. Hoje, nós iremos ouvir as suas instruções.”

Ananta dasa: Quando eu recebo a sua ordem, eu devo certamente dizer o que quer que eu saiba. Eu devo começar por me lembrar dos pés de lótus de meu Gurudeva, Sri Pradyumna Brahmacari, um associado confidencial de Sri Caitanya Mahaprabhu.

As jivas existem em dois estados: o estado liberado (mukta-dasa) e o estado do aprisionamento material (samsara-baddha-dasa). As jivas liberadas incluem os devotos puros de Sri Krsna, os quais, pela misericórdia de Sri Krsna, nunca estiveram aprisionados por maya; também se incluem as jivas que se tornaram liberadas da existência material. O estado liberado de existência é conhecido como mukta-dasa. As baddha-jivas, por outro lado, são aquelas que estão esquecidas de Sri Krsna e que caíram nas garras de maya desde tempos sem começo. O seu estado de existência condicionado é conhecido como samsara-baddha-dasa. As jivas que são liberadas de maya são cinmaya (completamente espiritual), e suas vidas é servir a Krsna (Krsna-dasya), Elas não residem neste mundo material, mas em um dos mundos espirituais puros, tais como Goloka, Vaikuntha, ou Vrindavana. Existem inumeráveis jivas que são liberadas de maya.

As jivas que são aprisionadas por maya também são inumeráveis. Devido ao seu defeito de alienação a Sri Krsna, a potência da sombra de Sri Krsna, conhecida como chaya-sakti ou maya, prende a jiva com a sua amarra tripla que consiste das três qualidades da natureza material, nomeadas de sattva-guna (bondade), rajo-guna (paixão) e tamo-guna (ignorância). As almas condicionadas aparecem em uma variedade de estados de existência, de acordo com a influência das várias gradações desses gunas (qualidades). Simplesmente considere as variedades nos corpos, humores, aparências, naturezas, condições de vida e movimentos das jivas.

Quando a jiva entra na existência material, ela adquire um novo tipo de egoísmo. No estado puro da existência, a jiva possui o egoísmo de ser um servo de Krsna, mas no estado condicionado, muitos tipos diferentes de egoísmo surgem, fazendo a entidade viva pensar, “eu sou um ser humano”, “eu sou um devata”, “eu sou um animal”, “eu sou um rei”, “eu sou um brahmana”, “eu sou um pária”, “eu sou doente”, “eu estou faminto”, “eu sou sem honra”, “eu sou caridoso”, “eu sou um marido”, “eu sou uma esposa”, “eu sou um pai”, “eu sou um filho”, “eu sou um inimigo”, “eu sou um amigo”, “eu sou um erudito”, “eu sou bonito”, “eu sou rico”, “eu sou pobre”, “eu sou feliz”, “eu sou triste”, “eu sou forte”, e “eu sou fraco”. Essas atitudes são conhecidas como ahanta, o que significa literalmente uma noção de identidade, de eu, ou falso egoísmo.

Além de ahanta, outra função conhecida como mamata (possessividade, ou a noção de meu) entra na natureza da jiva. Isto é exemplificado em atitudes tais como: “esta é a minha casa”, “estas são as minhas posses”, “esta é a minha riqueza”, “este é o meu corpo”, “estes são meus filhos”, “esta é a minha esposa”, “este é o meu marido”, “este é o meu pai”, “esta é a minha mãe”, “esta é a minha casta”, “esta é a minha raça”, “esta é a minha força”, “esta é a minha beleza”, “esta é a minha qualidade”, “este é o meu aprendizado”, “esta é a minha renúncia”, “este é o meu conhecimento”, “esta é a minha sabedoria”, “este é o meu trabalho”, “esta é a minha propriedade”, e “estes são meus servos e dependentes”. O arranjo colossal que coloca as concepções de ‘eu’ e ‘meu’ em jogo é conhecido como samsara (existência material).

Yadava dasa: As concepções de ‘eu’ e ‘meu’ estão presentes no estado condicionado, mas eles também existem no estado liberado?

Ananta dasa: Eles existem, mas no estado liberado eles são espirituais e livres de todas as falhas. No estado liberado no mundo espiritual, a jiva se torna familiarizada com a sua natureza pura, exatamente como foi criada por Bhagavan. Neste lar espiritual existem muitos tipos diferentes de egoísmo real, cada um com a sua própria noção de ‘eu’, então, também há muitos tipos de cit-rasa (trocas de sentimentos transcendentais). Todas as diferentes cinmaya-upakaranas (parafernália espiritual) a qual forma os ingredientes constitucionais da rasa vêm sob a concepção de ‘meu’.

Yadava dasa: Então, qual é o defeito nas diferentes concepções de ‘eu’ e ‘meu’ que existe no estado condicionado?

Ananta dasa: O defeito é que no estado puro, as concepções de ‘eu’ e ‘meu’ são reais, enquanto que na existência material elas são todas imaginárias, ou impostos sobre a entidade viva. Isso significa que essas concepções não são aspectos verdadeiros da jiva, mas são todas falsas identidades e relacionamentos. Consequentemente, todas as variedades de identificação material na existência mundana são impermanentes e irreais, e simplesmente causam felicidade ou aflição momentânea.

Yadava dasa: É falsa esta existência material enganosa?

Ananta dasa: Não, este mundo enganador não é falso; ele é uma realidade, pela vontade de Krsna. É a concepção da jiva de ‘eu’ e ‘meu’ quando ela entra no mundo material que é falsa. Aqueles que acreditam que este mundo é falso são Mayavadis (defensores da teoria da ilusão). Tais pessoas são ofensores.

Yadava dasa: Por que nós caímos neste relacionamento ilusório?

Ananta dasa: Bhagavan é a entidade espiritual completa (purna-cid-vastu), e as jivas são partículas de espírito (cit-kana). A primeira localização da jiva é na linha fronteiriça entre o mundo material e o mundo espiritual. As jivas que não se esquecem de seu relacionamento com Krsna são dotadas com cit-sakti, e são atraídas desta posição para o reino espiritual, aonde elas se tornam associados eternos de Sri Hari e começam a saborear o êxtase transcendental do serviço a Krsna.

Aquelas jivas que se afastam de Krsna desejam desfrutar de maya e maya as atrai para si através de sua potência. Precisamente neste ponto, o seu estado material de existência vem a ser e sua verdadeira identidade espiritual desaparece. “Eu sou o desfrutador de maya” – este falso egoísmo as cobre com uma grande variedade de falsas identidades.

Yadava dasa: Por que é que a nossa verdadeira identidade não aparece, ainda que nós tentemos alcança-la?

Ananta dasa: Existem dois tipos de empenho: apropriado e inapropriado. Empenhos apropriados certamente irão dissipar o falso egoísmo, mas como esforços inapropriados o farão?

Yadava dasa: O que são esforços inapropriados?

Ananta dasa: Algumas pessoas pensam que seus corações irão ser purificados se elas seguirem karma-kanda, e que elas serão liberadas de maya quando elas praticarem brahma-jñana. Este tipo de esforço é inapropriado. Outras pensam que por praticar astanga-yoga, elas irão entrar em um transe de samadhi-yoga e atingir a perfeição. Este é outro esforço inapropriado; também existem muitos outros tipos.

Yadava dasa: Por que esses esforços são inapropriados?

Ananta dasa: Esses métodos são inadequados porque aos praticar criam-se muitos obstáculos para obter o resultado desejado. Além disso, existe uma escassa possibilidade de se obter este resultado. A questão é que a nossa existência material surgiu por causa de uma ofensa, e a não ser que obtenhamos misericórdia da pessoa a quem nós ofendemos, nós não obteremos libertação da nossa condição material e nem atingiremos a nossa condição espiritual pura.

Yadava dasa: O que são esforços apropriados?

Ananta dasa: Sadhu-sanga (associação de devotos) e prapatti (rendição) são meios apropriados. Nós encontramos a seguinte citação sobre sadhu-sanga no Srimad Bhagavatam (11.2.30):

ata atyantikam ksemam prcchamo bhavato ´naghah
samsare ´smin ksanardho ´pi sat-sangah sevadhir nrnam

“Ó sem pecado, nós estamos lhe arguindo a respeito do benefício supremo. Neste mundo material, mesmo a metade de um momento com um suddha-bhakta é a maior das riquezas para os seres humanos.”

Se alguém perguntar como que as jivas que caíram nesta existência material podem obter o seu benefício supremo, eu irei responder que ele pode ser obtido ao ter sat-sanga, mesmo pela metade de um momento.

Prapatti é descrito na Gita (7.14) como se segue:

daivi hy esa gunamayi mama maya duratyaya
mam eva ye prapadyante mayam etam taranti te

“Esta Minha potência divina, conhecida como daivi-maya, consiste de três modos da natureza – sattva, rajas e tamas. Seres humanos não podem atravessar esta maya pelos seus próprios esforços, e, portanto, ela é muito difícil de ser superada. Somente aqueles que se renderam a Mim podem ir além desta Minha potência.”

Candidasa: Ó grande alma, eu não consigo entender a sua explicação muito bem. Eu compreendi que nós éramos entidades puras, e que devido ao nosso esquecimento de Krsna nós caímos nas mãos de maya, e ficamos presos neste mundo. Se nós obtivermos a misericórdia de Krsna, nós poderemos ser liberados novamente; caso contrário, permaneceremos na mesma condição.

Ananta dasa: Sim, por ora é suficiente para você acreditar neste tanto. Yadava dasa Mahasaya compreende claramente todas essas verdades, e você deve tentar compreender gradualmente essas verdades através dele. Sri Jagadananda escreveu uma linda descrição das variadas condições das jivas em seu livro Sri Prema-vivarta (6.1-13).

cit-kana – jiva, krsna – cinmaya bhaskara
nitya krsne dekhi – krsne karena adara
krsna-bahirmukha hana bhoga-vañcha kare
nikata-stha maya tare japatiya dhare

“A jiva é uma partícula infinitesimal de consciência espiritual, como uma partícula atômica de luz emanando do sol. Sri Krsna é a consciência espiritual completa, o sol transcendental. Enquanto as jivas focam a sua atenção em Krsna, elas mantêm reverência por Ele. Entretanto, quando elas desviam a sua atenção Dele, elas desejam desfrute material. A potência ilusória de Krsna, maya, que permanece ao lado delas, então as amarra em seu abraço.”

pisaci paile jena mati-cchana haya
maya-grasta jivera haya se bhava udaya

“O dharma da jiva que se desviou de Krsna fica encoberto, assim como a inteligência de uma pessoa fica encoberta quando ela é assombrada por uma bruxa.”

ami siddha krsna-dasa, ei katha bhule
mayara naphara hana cira-dina bule

“Ela se esquece da identidade de Sri Hari, assim como de sua própria identidade como servo de Krsna. Tornando-se um escravo de maya, ela vaga aqui e ali por muito tempo nesta existência material ilusória.”

kabhu raja, kabhu praja, kabhu vipra sudra
kabhu duhkhi, kabhu sukhi, kabhu kita ksudra

“Às vezes ela é um rei, e às vezes um governado, às vezes um brahmana, e às vezes um sudra. Às vezes está feliz e às vezes aflito, e às vezes ela é um minúsculo inseto.”

kabhu svarge, kabhu martye, narake va kabhu
kabhu deva, kabhu daitya, kabhu dasa, prabhu

“Às vezes está no paraíso, às vezes na terra, e às vezes no inferno. Às vezes é um deva e às vezes um demônio. Às vezes é um servo e às vezes um mestre.”

ei-rupe samsara bhramite kona jana
sadhu-sange nija-tattva avagata hana

“Conforme vaga desta maneira através da existência material, se por alguma grande sorte, acontece dela obter a associação de devotos puros, ela vem a conhecer a sua verdadeira identidade, a sua vida se torna significativa.”

nija-tattva jani ara samsara na caya
kena va bhajinu maya kare haya haya

“Pela associação com estes bhaktas, ela compreende a suaverdadeira identidade e fica indiferente ao desfrute material. Sofrendo amargamente pela sua posição, ela se lamenta ‘Ai de mim! Ai de mim! Por que eu servi a maya por tanto tempo?'”

kande bole, ohe krsna! ami tava dasa
tomara caraná chadi´ haila sarva-nasa

“Ela chora profusamente, e ora aos pés de lótus de Sri Hari, ‘Ó Krsna! Eu sou Seu servo eterno, mas eu fui arruinado porque desconsiderei o serviço aos Seus pés. Quem sabe quanto tempo eu estive vagando sem rumo como um servo de maya?'”

kakuti kariya krsne dake eka-bara
krpa kari krsna tare chadana samsara

“’Ó Patita-pavana! Ó Dina-natha! Por favor, proteja esta alma destituída. Libere-me de Sua maya e coloque-me ao Seu serviço.’” Sri Krsna é um oceano de misericórdia, e quando Ele ouve a jiva chorar amargamente em tal desespero mesmo que uma única vez, Ele rapidamente a transporta através desta intransponível energia material.”

mayake pichane rakhi´ krsna-pane caya
bhajite bhajite krsna-pada-padma paya
krsna tare dena nija-cic-chaktira bala
maya akarsana chade haiya durbala

“Krsna apodera a jiva com a Sua cit-sakti, para que o poder atrativo de maya sobre a alma gradualmente desvaneça. A jiva, então, vira as costas para maya e deseja obter Krsna. Ela adora Krsna de novo, e de novo, e finalmente se torna competente para obter Seus pés de lótus.”

´sadhu-sange krsna-nama´ – ei-matra cai
samsara jinite ara kona vastu nai

“Portanto, o único método infalível para atravessar esta instransponível existência material é cantar Krsna-nama na associação de bhaktas.”

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