Bhagavad-Gita, Matérias 2, Srila Bhaktivedanta Narayana Gosvami Maharaja, Srila Bhaktivedanta Svami Prabhupada Maharaja, Tradução
Deixe um comentário

Se alguém me oferece, com amor e devoção, uma folha, uma flor, fruta ou água. Eu as aceitarei.

Bhagavad-Gita, capítulo 9, verso 26

patram puspam phalam toyam
yo me bhaktya prayacchati
tad aham bhakty-upahrtam
asnami prayatatmanah

yah – qualquer; prayata-atmanah – possuindo uma natureza devocional; prayacchati – livremente oferece (sem desejo de ganho pessoal); me – a Mim; patram – uma folha; puspam – uma flor; phalam – uma fruta; toyam – água; bhaktya – com devoção; tat – esta própria coisa; bhakti-upahrtam – servido com devoção; aham – Eu; asnami – aceito.

Se qualquer bhakta de coração puro me oferecer uma folha, uma flor, fruta ou água com amor e devoção, eu certamente irei aceitar esse presente.

Comentário de Srila Svami Prabhupada

Para a pessoa inteligente, é essencial estar na Consciência de Krsna, engajado no serviço amoroso transcendental do Senhor, a fim de alcançar uma morada permanente, extasiante de felicidade eterna. O processo de obtenção de resultado tão maravilhoso é muito fácil e pode ser tentado mesmo pelos mais pobres dos pobres, sem qualquer tipo de qualificação. A única qualificação necessária, neste contexto, é a de ser um devoto puro do Senhor. Não importa o que alguém é ou onde se situa. O processo é tão fácil que até mesmo uma folha ou um pouco de água ou frutas podem ser oferecidas ao Senhor Supremo em amor verdadeiro e o Senhor terá prazer em aceitá-las. Ninguém, portanto, pode ser impedido da Consciência de Krishna, porque é tão fácil e universal. Quem é tão tolo que não quer ser consciente de Krishna através deste método tão simples e, assim, atingir a mais elevada perfeição da vida, da eternidade, da felicidade e do conhecimento? Krsna quer apenas serviço amoroso e nada mais. Krsna aceita até mesmo uma pequena flor de Seu devoto puro. Ele não quer qualquer tipo de oferta que venha de um não devoto. Ele não tem necessidade de nada de ninguém, porque Ele é autossuficiente, e ainda assim Ele aceita a oferenda de Seu devoto em uma troca de amor e afeição. Desenvolver a consciência de Krsna é a mais elevada perfeição da vida. Bhakti é mencionado duas vezes neste verso, a fim de declarar mais enfaticamente que bhakti, ou serviço devocional, é o único meio de se aproximar de Krsna. Nenhuma outra condição, como se tornar um brahmana, um erudito, um homem muito rico, ou um grande filósofo, pode induzir Krsna a aceitar alguma oferenda. Sem o princípio básico de bhakti, nada pode induzir o Senhor em concordar em aceitar nada de ninguém. Bhakti nunca é causal. O processo é eterno. É uma ação direta no serviço ao todo absoluto.

Aqui o Senhor Krishna, tendo estabelecido que Ele é o único desfrutador, o Senhor primordial e o objeto real de todas as oferendas sacrificiais, revela quais tipos de sacrifícios Ele deseja que sejam oferecidos a Ele. Se uma pessoa deseja se envolver em serviço devocional ao Supremo, a fim de ser purificado e atingir o objetivo da vida – o serviço transcendental amoroso a Deus – então se deve descobrir o que o Senhor deseja dele. Aquele que ama Krsna lhe dará tudo o que Ele quer, e ele evita oferecer qualquer coisa que não seja desejável. Assim, carne, peixes e ovos não devem ser oferecidos a Krsna. Se Ele desejasse tais coisas como oferendas, Ele teria dito isso. Em vez disso, Ele pede claramente que uma folha, frutas, flores e água devem ser dadas a Ele, e Ele diz que desta oferta, “Eu vou aceitá-la”. Por isso, devemos entender que ele não vai aceitar carne, peixe e ovos. Legumes, grãos, frutas, leite e água são os alimentos apropriados para os seres humanos e são prescritos pelo próprio Senhor Krsna. Qualquer outra coisa que nós comemos não pode ser oferecids a ele, pois ele não vai aceitá-la. Assim, não podemos estar agindo no nível de devoção amorosa se oferecermos tais alimentos.

No terceiro capítulo do Srimad Bhagavad-Gita, verso 13:

yajña-sistasinah santo
mucyante sarva-kilbisaih
bhuñjate te tv agham papa
ye pacanty atma-karana

“Os devotos do Senhor são liberados de todas as formas de pecados porque eles se alimentam da comida que é primeiramente oferecida para o sacrifício. Outros, que preparam o alimento para o desfrute pessoal dos sentidos, na verdade comem apenas pecado”.

Sri Krsna explica que apenas os restos de sacrifícios são purificados e aptos para o consumo por aqueles que estão buscando avanço na vida e libertação das garras do enredamento material. Aqueles que não fazem uma oferenda de seus alimentos, Ele diz, no mesmo verso, estão comendo só pecado. Em outras palavras, a cada boca cheia estão simplesmente aprofundando ainda mais o seu envolvimento nas complexidades da natureza material. Mas a preparação de pratos agradáveis de legumes simples, oferecendo-os diante da imagem ou deidade do Senhor Krsna, e curvando-se e rezando para que Ele aceite uma oferenda tão humilde que permita que alguém avance firmemente na vida, para purificar o corpo, e para criar refinados tecidos cerebrais que o levará a um pensamento claro. Acima de tudo, a oferenda deve ser feita com uma atitude de amor. Krsna não tem necessidade de alimentos, uma vez que Ele já possui tudo que existe, mas Ele vai aceitar a oferenda de quem deseja agradar a Deus dessa forma. O elemento importante, na preparação, no atendimento e na oferenda, é agir com amor por Krsna.

Os filósofos impersonalistas, que desejam manter que a Verdade Absoluta é sem sentidos, não pode compreender este verso do Bhagavad-gita. Para eles, ou é uma metáfora ou é a prova do caráter mundano de Krsna, o recitador do Bhagavad-gita. Mas, na realidade, Krsna, a Suprema Personalidade de Deus, tem sentidos, e afirma-se que os Seus sentidos são intercambiáveis; em outras palavras, um sentido pode desempenhar a função de qualquer outro. Isso é o que significa dizer que Krsna é absoluto. Faltando-Lhe sentidos, ele dificilmente poderia ser considerado completo em todas as opulências. No sétimo capítulo, Krsna explicou que Ele impregna as entidades vivas na natureza material. Isso é feito através do Seu olhar sob a natureza material. E assim, neste caso, o ouvir de Krsna das palavras de amor do devoto ao oferecer os alimentos é totalmente idêntico ao Seu comer e saborear. Este ponto deve ser enfatizado: por causa de Sua posição absoluta, a Sua audição é totalmente idêntica à Sua alimentação e degustação. Só o devoto, que aceita Krsna como Ele se descreve, sem interpretação, pode entender que a Suprema Verdade Absoluta pode comer comida e se divertir.

Comentário de Srila Visvanatha Chakravarti Thakura Sarartha-Varsini

“Muitas vezes existe muita miséria no culto aos devas, mas essa dor não existe na realização de Bhakti para Mim, e esta também pode ser realizada com facilidade”. Sri Bhagavan fala este verso começando com a palavra patram para explicar este ponto. É descrito aqui que é a bhakti do devoto que faz com que Bhagavan aceite as suas oferendas. A palavra bhaktya foi usada na segunda linha, e também de novo na terceira linha, na palavra bhakty-upahatam. Assim, existe a repetição. De acordo com as regras da gramática sânscrita, a palavra bhaktya, na terceira estrofe, implica aqueles que são dotados de bhakti, ou seja, “Meus bhaktas”. Por isso, Ele enfatiza, “Se alguém que não for Meu bhakta, oferece-Me frutas ou flores com devoção superficial, Eu não aceito isso. Mas Eu aceito (asnami) o quer que os meus bhaktas me ofereçam, seja até mesmo uma folha. Em outras palavras, Eu desfruto plenamente aquilo que é oferecido a Mim com bhakti (amor e devoção), mas eu não desfruto da oferenda de alguém que foi forçado a fazê-lo. Mas se o corpo do meu bhakta estiver impuro, Eu não aceito as suas oferendas”. Portanto, Bhagavan diz prayatatmanah, significando, aquele cujo corpo é puro. A partir desta afirmação, conclui-se que uma mulher está proibida de fazer uma oferta durante o seu ciclo menstrual. Outro significado da palavra prayatatmanah é “Eu aceito as oferendas daqueles cujos corações são puros. Ninguém, além de Meus bhaktas, possui o coração puro”.

No Srimad-Bhagavatam (2.8.6) Pariksit Maharaja diz, “Aqueles que são puros de coração nunca abandonam os pés de lótus de Sri Krsna”. O sintoma de uma pessoa que tem um coração puro é que ela é incapaz de abandonar o serviço aos os pés de lótus de Bhagavan. Portanto, se tal bhakta às vezes é visto como que se possuísse desejo ou raiva, deve-se compreender que ele não pode fazer qualquer mal a outrem. Ele é comparado a uma cobra venenosa cujas presas foram removidos.

Comentário de Srila Narayana Gosvami Maharaja Sarartha-Varsini Prakasika-Vrtti

Depois de ter explicado a natureza imperecível e ilimitada do resultado do Bhagavad-bhajana, Bhagavan está agora explicando a qualidade do Bhagavad-bhajana, que é fácil de executar. Quando algum objeto facilmente obtenível, como uma folha, flor, frutas ou água é oferecido a Bhagavan com bhakti, Ele, então, o aceita completamente, embora Ele seja dotado de opulência ilimitada e seja perfeitamente satisfeito. Ele fica com fome e sede por causa do amor de Seu bhakta por Ele e, absorvido em um humor de bhakti, Ele come a oferenda por puro prema. Na casa do bhakta Vidura, Sri Krsna, com grande prema, comeu até as cascas de banana das mãos da esposa de Vidura. Ao comer o arroz seco que seu querido amigo Sudama Vipra trouxe e ofereceu com prema, Sri Krsna disse:

patram puspam phalam toyam
yo me bhaktya prayacchati
tad aham bhakty-upahatam
asnami prayatatmanah
Srimad-Bhagavatam 10.81.4

“A preparação pode ser deliciosa ou não, mas se ela é oferecida com amor e um sentimento de que é muito deliciosa, torna-se mais deliciosa para Mim. Neste momento, eu abandono todos os outros pensamentos e a saboreio. Mesmo que tal fruta ou flor não tenha gosto ou fragrância, eu a aceito, sendo cativado pelo prema do meu bhakta”.

Pode-se perguntar se Krsna aceita aquele artigo que é oferecido a Ele com bhakti por aqueles que adoram a devas. Em resposta, Ele diz: “Não. Eu só aceito o que Meus bhaktas Me dão, não itens oferecidos por outros”. Os sacerdotes rtvik no sacrifício do Rei Nabhi falaram com Sri Bhagavan, que apareceu lá:

parijananuraga-viracita-sabala-samsabda-salilasita-
kisalaya-tulasika-durvankurair api sambhrtaya
saparyaya kila parama paritusyasi
Srimad-Bhagavatam 5.3.6

“Você certamente se torna especialmente satisfeito pela adoração oferecida pelos seus bhaktas que estão cheios de anuraga por Você, que oferecem orações com as vozes sufocadas e que executam o puja a Você com água, folhas de Tulasi e brotos de grama Durva”.

Uma declaração semelhante do Gautamiya-tantra no Hari-bhakti-vilasa, diz que:

tulasi-dala-matrena jalasya culukena va
vikrinite svam atmanam bhaktebhyo bhakta-vatsalah

“Bhagavan, que é bhakta-vatsala, se vende completamente para esses bhaktas que, com amor e devoção, oferecem-Lhe uma folha de Tulasi e um punhado de água”.

Ao comer um bocado de arroz seco do saco de esmola do bhakta, Shuklambara Brahmacari, Sri Caitanya Mahaprabhu Disse:

prabhu bale tora khudkana mui khaum
abhaktera amrta ulati na caum

“Ó Shuklambara, eu estou aceitando este arroz seco de você, mas eu nem mesmo olho para os alimentos ambrosíacos que são oferecido pelos não-devotos”.

No Srimad-Bhagavatam (4.31.21), Devarsi Narada também disse aos Pracetas: na bhajati kumanisinam sa ijya. “Sri Hari nunca aceita o serviço de pessoas doentes de espírito que, intoxicadas pela sua erudição, riqueza ou bom nascimento, desrespeitam Seus bhaktas que realizam ananya seva para Ele”.

Sri Krishna deu pessoalmente uma instrução semelhante a Uddhava: “Mesmo os presentes que me foram dados em profusão por aqueles que não são devotos não Me satisfazem”. Além disso, a fim de esclarecer este siddhanta, o Senhor disse a Sudama:

anv apy upahrtam bhaktaih
premna bhury me eva bhavet
bhury apy abhaktopahrtam
na me tosaya kalpate
Srimad-Bhagavatam 10.81.3

“Se Meu bhakta Me dá a menor das oferendas, Eu a considero extremamente ótima. Mas se aqueles que não são devotos Me dão oferendas elaboradas, elas não podem Me satisfazer”.

Aqui, a palavra prayatatma significa, todo aquele que purificou o seu coração por bhakti. Sri Bhagavan come os alimentos oferecidos com priti por tais bhaktas puros de coração, mas Ele não come os alimentos dados por outros. Prahlada Maharaja também fez uma declaração semelhante: iti pumsarpita visnor arpitaiva sati yadi kriyate. “A realização do ouvir, cantar, e assim por diante é suddha-bhakti somente se uma pessoa se entregou totalmente aos pés de lótus de Bhagavan, não o contrário”.

O significado é que somente quando os angas de bhakti são realizados com rendição completa pode é que o coração se purifica. Sri Bhagavan amorosamente aceita apenas as oferendas de tais bhaktas.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s